Talvez o dev do futuro seja mais produto do que código
Assisti recentemente a um vídeo que me fez parar para pensar um pouco sobre para onde a profissão de desenvolvedor está caminhando.
Não foi exatamente uma ideia nova para mim. Na verdade, foi mais aquela sensação de finalmente colocar em palavras algo que eu já vinha percebendo no meu próprio dia a dia.
Acho que o desenvolvedor do futuro vai precisar ser cada vez mais próximo de produto.
E não estou falando que todo dev vai virar Product Manager, ou que saber programar vai deixar de importar. Muito pelo contrário.
Acho que programação continua sendo uma das ferramentas mais importantes que um desenvolvedor pode ter. A diferença é que talvez ela deixe de ser o centro de tudo.
Durante muito tempo, uma parte enorme do nosso trabalho era transformar uma ideia em código.
Criar uma tela.
Fazer um CRUD.
Criar uma API.
Conectar um banco.
Implementar uma regra de negócio.
Hoje, com as ferramentas de IA que temos, boa parte disso ficou muito mais barata e rápida.
E a tendência parece ser essa continuar.
Então começa a surgir uma pergunta interessante:
se escrever o código está ficando mais fácil, o que passa a diferenciar um bom desenvolvedor?
Para mim, começa a ser a capacidade de entender o problema.
Não apenas receber uma tarefa como "crie uma tela para cadastrar X", mas entender por que aquela tela precisa existir, quem vai utilizá-la, qual problema ela resolve e se existe uma forma melhor de resolver aquilo.
Isso muda bastante a forma como eu enxergo a profissão.
Um desenvolvedor que consegue pegar um problema, conversar com quem está sofrendo com ele, entender o contexto, pensar na solução, usar IA para acelerar a implementação, validar com o usuário e voltar para melhorar o produto acaba sendo muito mais completo do que alguém que apenas recebe requisitos e transforma todos eles em código.
E talvez seja justamente aí que esteja surgindo esse "dev de produto".
Alguém que continua sendo desenvolvedor, mas que entende que o código é apenas uma parte do produto.
Tenho percebido isso principalmente trabalhando com sistemas que estão muito próximos da operação.
Em software industrial, por exemplo, não adianta muito construir uma funcionalidade tecnicamente perfeita se ela não resolve o problema de quem está no chão de fábrica.
Às vezes a melhor solução tecnicamente falando não é a melhor solução para o usuário.
E essa diferença não está na linguagem de programação, no framework ou no banco de dados.
Está em entender o produto.
A IA deixa isso ainda mais evidente.
Se eu consigo pedir para uma IA criar uma API, montar uma interface ou implementar uma funcionalidade em uma fração do tempo que levaria antes, o meu valor começa a estar muito mais relacionado àquilo que acontece antes e depois do código.
O que devemos construir?
Por que devemos construir?
Como devemos construir?
Quais são os trade-offs?
Como sabemos que isso realmente resolveu o problema?
E talvez essa última pergunta seja uma das mais importantes.
Porque ficou muito fácil construir coisas.
O difícil continua sendo construir a coisa certa.
Isso também muda o que eu acho que um desenvolvedor deveria estudar.
Talvez faça cada vez menos sentido passar anos focando exclusivamente em uma stack.
Claro que ainda precisamos conhecer profundamente as ferramentas que usamos. Um bom desenvolvedor precisa entender seu código, sua arquitetura e as tecnologias que coloca em produção.
Mas também precisa entender um pouco de UX, produto, negócio, infraestrutura, segurança, observabilidade e comunicação.
Não necessariamente para virar especialista em tudo.
Mas para conseguir enxergar o sistema inteiro.
Acho que esse é um dos caminhos que a profissão está tomando.
Não um futuro em que "a IA programa e os devs desaparecem", mas um futuro em que o custo de produzir software diminui e, por consequência, aumenta a importância de saber o que vale a pena produzir.
Talvez o dev do futuro não seja aquele que escreve mais código.
Talvez seja aquele que consegue olhar para um problema, entender o contexto, transformar aquilo em um produto útil e usar todas as ferramentas disponíveis (inclusive IA) para chegar lá mais rápido.
E, sinceramente, acho que isso torna a profissão ainda mais interessante.